SE EU FOR FALAR DA PORTELA.... (Abril 2009) – Entrevista
Dirceu, Walter Santos e
Ciloca
Quem
chegar à Portela e perguntar por Damasceno de Souza, talvez possa passar pelo
dissabor de ouvir um “não conheço ninguém com esse nome”. Mas se o visitante
procurar por Ciloca vai ser indicado a conversar com um dos grandes baluartes e
fundadores da velha guarda da escola. Desde 1941 na Portela, “Seu” Ciloca
vivenciou várias transformações nos desfiles das escolas de samba, quando entre
outras coisas, foi o responsável por ser o criador dos movimentos da asa da
águia. Como não poderia deixar de ser, o Agogô Samba e Carnaval foi a Madureira
conversar com o pessoal que fez a história da escola mais vezes campeãs do
carnaval carioca, com um total de 21 títulos. Figuras tradicionais como Walter
Santos, Dirceu e além do próprio Ciloca falaram dessa paixão que é a Portela.
Seu Ciloca, conta pra gente como é sua história na escola.
Ciloca – Nunca sai daqui para escola nenhuma, sou do tempo da
D. Esther, uma das fundadoras da “Quem fala de nós come mosca”. Havia também
outros grupos como “As baianinhas de Oswaldo Cruz” e “Vai como pode”. Foi a
união desses grupos que em 1935, originou a Portela. O Dulcidio Gonçalves, que
era o chefe de policia, na época ordenou a mudança do nome para Portela. Ele
considerava o nome “Vai como pode” ordinário e impróprio... Em 1936 coloquei aço
nas saias das baianas, que eram de goma, em 1970 eu fiz a primeira águia
batendo asa, e, em 1976 coloquei os primeiros carros de ferro, também fogos na
avenida. A Portela foi à primeira escola a colocar fogos.
E o nome Portela, foi em homenagem ao Paulo da Portela?
Ciloca – Não, foi por causa da Estrada da Portela, o Dulcidio
Gonçalves polícia, como já te disse foi quem botou esse nome. Ele nos
perguntou: vocês são de onde? Então, eu respondi: Estrada da Portela.
Dirceu - Isso, inclusive o Paulo acabou por herdar esse nome
Portela pelo mesmo motivo e também por causa da escola. Todos moravam na
região.
Como foi a convivência com o Natal?
Ciloca - O Natal não era da Portela, ele era de futebol. Ele
veio pra Portela em 1964, na verdade o irmão dele, o Nozinho é que era da
escola. Fez muito pela Portela e por Madureira.
Dá pra fazer uma comparação da Portela de tempos atrás até os dias atuais? Tem
muita diferença da década de 70, 21 carnavais?
Dirceu – Agora ta melhor que antigamente, está mais organizado.
Esse novo Presidente, o Nilo Figueiredo está dando uma vida para Portela fora
de série.
A briga entre as escolas é só falácia ou existe realmente essa de levar troféu
pra casa?
Dirceu – Quero falar um negócio para você, nem dentro da
Marquês de Sapucaí tem briga, se você tiver que passar por dentro de uma
co-irmã vão abrir para você passar. Dificilmente vão dizer que sua fantasia é
feia, existe uma harmonia muito grande no mundo do samba, antigamente não
existia isso, hoje isso acabou. Outro detalhe, na Portela eu desfilava com a
minha mulher e nunca disseram gracinha para ela, não parece, mas isso é muito
serio.
A cultura, o respeito que as escolas de samba produzem, qual à importância
disso?
Dirceu - Hoje em dia, não se pode mais desvincular uma escola
de samba com assistência social. Todas elas têm obras e cursos
profissionalizantes. Na Portela, por exemplo, tem um curso que forma pessoas
para trabalhar no barracão. São artesões, vidraceiros, carpinteiros,
escultores, que depois vão trabalhar até em outras escolas, já com uma
profissão.
São varias noites sem dormir, costurando fantasia, apertando o couro dos
surdos, das caixas e dos tamborins. O que vocês tem a dizer sobre a Portela, da
emoção em viver e fazer uma escola de samba, como é isso?
Walter dos Santos – Nas escolas de samba você tem que lidar
muitas cabeças diferentes. Se para um está bom, para maioria não está. Há uma
discordância e é preciso haver o debate, só assim as coisas funcionam. Não tem
jeito, o clima de insatisfação vai existir até a aprovação de alguma idéia. Uma
escola de samba é assim, se briga muito, mas o que vale é o convívio sadio e
organizado.
Dirceu – Olhe com atenção! – nesse momento, Seu Dirceu aponta
o dedo indicador para um grupo de meninas - Veja o número de crianças que
brincam aqui, na escola. É um ambiente bem familiar, aqui não tem briga, aqui
as pessoas se gostam. A Portela é harmonia e respeito, nós respeitamos a todos
que vem, isso faz parte da nossa rotina. E nós consideramos se não o berço do
samba, pelo menos um grande reduto do samba, daqui saíram grandes compositores
e ícones da MPB, muitos estão por ai: Paulinho da viola, Zeca pagodinho, Marisa
Monte e outros... “E se eu for falar da Portela não vou terminar”, como diz o
samba do Monarco.